Por Karine Margarida
Precisei arrumar meu celular. Onde?
Santa Ifigênia foi o canal.
Ao chegar naquela rua conhecida da grande SP e já hipnotizada por "Tudo que você quer ao alcance do seu bolso", um dos meninos que conhece bem o local e os comerciantes, me perguntou:
- O que você procura?Respondi:
- Um celular. Pensando que o meu havia dado o seu último suspiro.
Mal terminei de falar e a viagem começou.
O menino andava tão rápido que eu não tinha tempo nem para memorizar o caminho, se ele me deixasse lá, com certeza eu demoraria um século para voltar ao ponto de partida.
Naquela velocidade "anormal", naquela multidão de estandes, o menino do ombro de prata me levou em dois locais certeiros.
No primeiro estande, percebi que eu era apenas mais uma, além de me cobrarem caro, quiseram me empurrar outro aparelho, como cliente me senti indignada, pois para adquirirmos algo, gostamos de exclusividade, atenção, mesmo que sejamos mais um, o tratamento faz toda a diferença.
Para testa-lo, fiz questão de tirar o parelho da bolsa e como eu já esperava, era muito trabalho para ele que nem olhou direito o parelho e logo disse que não havia conserto.
Bem, senti que o menino do ombro de prata também não gostou da forma com que ele me atendeu, logo que saímos, mais rápido do que chegamos, o menino me perguntou com toda educação do mundo:
- Você quer dar mais uma olhada dona, ou quer fazer negócio?
Respondi: Quero fazer negócio.
UALLLLLL... Embarcamos em mais uma viagem, no caminho ele teve tempo de apontar para o outro lado da rua e dizer:
- Ta vendo aquelas crianças ali, são minhas. Fomos ao médico hoje cedo e minha patroa queria passear. Ah, não pensei duas vezes, trouxe eles comigo.
- Como assim? Você esta brincando! Diz a verdade, você mora ali em cima. (As crianças brincavam na escada, parte debaixo de um imóvel).
- Não, eu ganho o pão aqui na Santa Ifigênia, minhas crianças são tudo pra mim. Depois de muito sofrimento, eu entendi que trabalhar com dignidade traz muito mais retorno do que a bandidagem.
Fiquei em silêncio, pensando no que ele havia falado. Chegamos ao local.
www.itouchsp.com.br O atendimento, a qualidade dos parelhos, impecável! Dessa vez me senti única, tão exclusiva que eu precisei dividir com vocês essa experiência.
Continuamos conversando, agora com os meninos do estande também.
- Olha dona, vou te mostrar meu ombro.
Quando ele levantou a manga, o ombro dele saltou para fora. Eu quase morri, tive medo, compaixão, vontade de chorar, arrumar o ombro dele...
O menino do estande perguntou:
- Caaaara, o que e isso? O que você fez?
Para vocês terem ideia, eu virei o rosto. Aquilo me doía na alma.
- Eu era bandido, dos bons, ate que comecei a enxergar a vida com outros olhos, meus filhos me deram essa oportunidade, por amor, eu mudei. Hoje, faço um serviço aqui, outro ali. Não ganho a grana que eu ganhava, mas sou honesto, pago minhas contas e sustento minha família.
Meu coração naquele momento era daquele menino do ombro de prata que eu nunca mais vou esquecer.
- Há anos tem uma bala alojada no meu obro, preciso fazer uma cirurgia. Tudo vai dar certo, mais para frente me conserto, brincou ele. O importante é que consegui mudar minha vida e hoje vivo para os meus filhos. Bom, vou indo dona, você esta em boas mãos.
Sem saber o que dizer, pedi a DEUS para proteger o menino do ombro de prata e toda sua família. E quase sem voz, arranjei forças para me despedir:
- Obrigada! Por favor, conserte esse ombro em?
Eu e os meninos de estande estávamos perplexos. O que dizer? Tantos engravatados roubando nossa pátria, nosso povo, nossa educação, nossa cultura... Ali, vi a figura de um homem saindo VIVO de uma guerra para lutar apenas por seus filhos.



